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Diego Brandão, filho do ex – jogador Gaúcho, treinador do Vasco nos anos 90, tem 34 anos e uma boa experiência como treinador dos times nas mais variadas divisões do futebol do Rio de Janeiro, tendo carreira vitoriosa igual ao pai. Foi jogador, começando a carreira aos 15 anos no Grêmio EF, em 2001. Em 2002, após passagens por Copacabana e pela Seleção Carioca sub - 17, chegou ao Vasco, onde integrou os times sub - 17 e sub - 20 do Gigante da Colina. Ele voltaria ao clube Cruzmaltino anos mais tarde. Depois foi para as Ilhas Cayman, onde se profissionalizou pelo East End United e encerrou a sua carreira.


Em 2006, começou a carreira como auxiliar técnico pelo Resende FC, à época na terceira divisão estadual. Ainda trabalhou pelas equipes do Boavista e do Guanabara (este, extinto), até chegar ao Vasco em 2009. No Gigante da Colina, foi auxiliar técnico do time sub - 20, ficando até 2010, participando da campanha do título dos juniores.


Em 2011, foi trabalhar nos Emirados Árabes, onde foi treinador do Sharjah FC, nas categorias sub - 14, sub - 15, sub - 17 e sub - 19. Nesta última categoria, foi campeão nacional em 2011/12 e da Copa do Rei em 2013/14, além de um vice-campeonato neste mesmo torneio em 2011/12. No sub - 14, ele ainda foi campeão da liga nacional da categoria pelo mesmo Sharjah, em 2017/18. Ao todo, foram seis anos nos Emirados Árabes.


Em 2016, foi auxiliar técnico do time profissional da Portuguesa da Ilha. Na equipe insulana, acabou levando a equipe ao nono lugar na classificação geral (3º lugar da Taça Rio), suficiente para manter a Lusa na 1ª divisão, mas não o suficiente para livrar a equipe da seletiva em 2017.


Depois da 2ª passagem pelos Emirados, Diego treinou o São Cristóvão no ano passado, deixando uma boa impressão no time que revelou Ronaldo Fenômeno, mas ficando em 4º lugar no grupo B, que tinha os finalistas daquela edição: o campeão Ceres e o vice-campeão Campo Grande. No começo deste ano, acertou com o Olaria, mas a pandemia atrapalhou os planos e ele foi substituído por Fernando Santos.


Ele fala nesta entrevista exclusiva ao Cariocado sobre a época em que treinou o São Cristóvão, na Série C do Carioca, o período como técnico do Olaria, a experiência internacional e ainda fala sobre o calendário da FERJ e muito mais.


Sobre o período em que treinou o São Cristóvão, Diego diz: “A experiência foi boa, um aprendizado muito grande. O clube, mesmo com as dificuldades financeiras, o trabalho foi bom. A diretoria está fazendo um trabalho de recuperação do clube, reerguendo o São Cristóvão. O time foi parar na quarta divisão e eles estão fazendo um bom trabalho. Contamos com jogadores selecionados em peneiras, porque o clube não tinha uma ajuda financeira. Mesmo assim, colocamos nove jogadores em outros clubes. Tivemos jogadores no Olaria, no São Gonçalo, um foi pro Líbano, outro foi para Angola... Então, fizemos um trabalho bem interessante lá.”


Ao ser questionado sobre as formas de jogo, Diego Brandão comenta: “Eu gosto do estilo ofensivo, sou um treinador bem ofensivo, gosto de jogar em cima do adversário o tempo todo com uma intensidade muito forte. Não gosto que o adversário fique acomodado com a partida, ele tenha tempo livre pra pensar. Gosto de buscar o jogo mais ofensivo, o mais agudo e vertical possível, buscando o gol o tempo todo.”


Na carreira de técnico, Diego fala que a inspiração vem de família: “Meu pai, o Gaúcho, foi técnico e ele tem esse estilo de jogo ofensivo, sempre jogando em busca do gol. Nos times em que ele passou, sempre teve esta marca, ou seja, é uma inspiração pra mim.


Já dentre os técnicos da atualidade, “desde á época do (Borussia) Dortmund, eu gosto do (Jurgen) Klopp (técnico do Liverpool). É um cara que tenta sempre buscar sempre o estilo de jogo dele. É um cara que sempre joga na vertical, sempre pra cima... A gente brinca que é o “rock n’ roll do futebol”, assim como é o (Jorge) Sampaoli (técnico do Atlético - MG), o (Jorge) Jesus (técnico do Benfica e campeão da Libertadores e Brasileiro com o Flamengo em 2019) ... Este estilo de jogo me chama muito a atenção.”

 

Diego foi treinador do Olaria no começo do ano. Sobre este período, ele diz que usou jogadores da base e fala com carinho sobre eles. “É um grupo muito interessante, de jovens que buscam um espaço no cenário do futebol profissional e estávamos fazendo bons resultados. Dos 4 jogos de preparação pra B1, perdemos apenas um, o 1º, contra o Bangu, que já treinava há mais tempo e jogando o Campeonato Carioca. E o 1º gol do Bangu foi só aos 45’ do 1º tempo. Ou seja, ficamos o 1º tempo inteiro sem tomar gol do Bangu, com esse time jovem e muito interessante.”

Apesar do grupo jovem, ele podia contar com nomes mais experientes: “O jogador que tinha mais experiência no futebol quando começamos o trabalho no Olaria era o Júnior (meia), que hoje está fazendo um belo trabalho lá no Maricá. A gente conversava com os coordenadores e eles falavam que o Júnior não iria conseguir render durante os 90 minutos do jogo, embora eu falava que ele aguentaria e hoje vemos o Júnior conseguindo jogar uma partida inteira, há oito jogos. A gente falava pra ele que ele iria conseguir chegar a essa intensidade de jogo e eles não estavam acreditando e vendo ele hoje no Maricá, ele tá fazendo um bom campeonato. Depois dele veio o Anderson (zagueiro campeão brasileiro pelo Fluminense em 2012), que é um cara que tem um caráter e um comportamento de altíssimo nível. Os dois eram as referências do grupo quando eu estava lá no Olaria.” Além de Anderson, o Olaria também trouxe Antônio Carlos, campeão brasileiro em 2012 pelo Fluminense, junto do Anderson.

Sobre a sua saída do clube, ele diz que poderia ter sido evitada: “Tentei trazer pro Olaria uma organização lá de fora, da época em que estava nos Emirados, que me ensinou muito, especialmente na parte de organização de treinamento, de planejamento...


Em janeiro, eu já tinha mostrado toda a programação que iria ser feita até março (a B1 iria começar em maio), já tinha planejamento de treinamentos, tanto que ainda em janeiro recusei uma proposta para voltar aos Emirados Árabes, por estar comprometido com o Olaria e com o seu projeto, mas infelizmente, aconteceu o que aconteceu (a B1 foi adiada em razão da paralisação do Campeonato Carioca e só voltou no segundo semestre, após o fim do grupo Z da Série A, que aconteceu em junho)”.


E Diego vai além, dizendo que se seu trabalho continuasse, “isso iria refletir na competição (com Fernando Santos, o Olaria terminou o 1º turno em 8º lugar no grupo A, com uma vitória, dois empates e 5 derrotas). Vínhamos fazendo os amistosos, o time estava numa crescente muito boa, o Olaria tem um grupo muito bom e agora mais experiente, com jogadores campeões cariocas e até brasileiros e isso certamente iria refletir na competição e quem sabe, fazer voos mais altos na B1. No amistoso que fizemos contra o Boavista (vice - campeão da Taça Guanabara), jogamos de igual pra igual e certamente tínhamos tudo pra fazer uma bela competição.”


Questionado sobre quais atletas se empenhavam nos treinamentos, Diego foi categórico: “Todos os atletas se empenhavam muito. O grupo aceitou bem os treinamentos”. Diego ainda falou das dificuldades de encontrar um campo pra treinar. Segundo ele, o campo principal da Rua Bariri estava em reforma e com isso, o time treinou nos campos sintéticos, e mesmo assim,  o Olaria conseguiu empatar com o Boavista, time que tinha uma melhor estrutura e que já estava em competição oficial (além do Carioca, o Verdão também jogou a Copa do Brasil). Se isso iria refletir na qualidade, o técnico disse que os jogadores percebem isso e a resposta é a entrega dentro de campo, tanto fisicamente quanto taticamente.


Sobre o nível técnico da Série C do Campeonato Carioca e o da Série B1, Diego diz que há um grande desnível: “Na Série C, por ser uma competição sub - 23, os times podem inscrever apenas cinco jogadores acima de 23 anos. Ou seja, são jogadores jovens, que nunca jogaram um torneio profissional e que por consequência, sentem o nervosismo de jogar uma competição oficial. Quando você veste a camisa do time e a disputa vale 3 pontos, isso acaba sendo uma carga emocional muito grande para o atleta, ainda mais um atleta jovem. Já na Série B1, as coisas são diferentes, o nível técnico é mais alto. Temos jogadores que jogam ou tiveram passagens pela Série A, o que eleva a competitividade. A B1 é uma competição nivelada.”



E é claro, ele não deixaria de tocar na polêmica do ano de 2019 na quarta divisão: o esquema de manipulação de resultados envolvendo o presidente do Atlético Carioca, atual Porto da Pedra e o São José, de Itaperuna, cuja cena mais marcante foi a do presidente da equipe de São Gonçalo comemorando um gol contra o seu próprio time. Sobre isso, o técnico diz que isso é uma coisa triste, ruim pro futebol brasileiro e uma mancha pro futebol carioca.


Para Diego Brandão, a preparação é fundamental na busca por resultados: “O jogador que tem uma boa preparação. O treinador que não acredita no treinamento, pra mim, não é treinador. O treinamento é uma parte fundamental para que um jogador faça uma boa partida. Tanto que uma das divergências com a diretoria do Olaria foi a incompatibilidade de metodologias. Depois do Carnaval (no final de fevereiro), pedi três semanas para implantar o tipo de comportamento que queria dentro do jogo. Já os gestores acreditavam diferente, sendo essa implantação feita jogo após jogo, o que não concordo. Hoje em dia, na Série A do Brasileirão, todos os treinadores pedem um tempo para implantar as suas metodologias, pois é um jogo atrás do outro, sempre jogando toda quarta e todo domingo e assim, você não treina direito (um exemplo de como não fazer isso foi na transição de Ramon Menezes para Ricardo Sá Pinto no Vasco. O técnico do sub - 20, Alexandre Grasseli (que assumiu após a demissão de Ramon), teve só dois dias para treinar o Vasco contra o Flamengo e Sá Pinto, também teve dois dias para arrumar o time contra o Corinthians e o resultado foram falhas bisonhas, com direito a gol contra no jogo com o Timão). Eu acredito muito no meu treinamento, eu quero contribuir muito pro meu atleta e ajudar ele nessa tomada de decisão, porque esse improviso em campo é uma tomada de decisão do atleta. O atleta precisa estar pronto para tomar a melhor decisão possível, porém o treinador influencia na parte do treinamento. Você pode criar treinamentos para que isso ocorra da melhor forma possível. E é nisso que acredito.”


Sobre o trabalho no Olaria, Diego diz que montou um programa pros atletas junto do preparador físico: “Levamos uma programação pros atletas e em janeiro, eles já sabiam do que iria acontecer, numa programação de três meses que levamos para o gestor e os coordenadores. Ou seja, eles também sabiam em janeiro o que iria acontecer em março”. Diego também aponta que esse trabalho tinha uma boa evolução “tanto na parte física, quanto na parte técnica e os jogadores sentiam essa evolução”. Além disso, o ex – técnico do Olaria ressalta a importância do planejamento: “Isso facilita muito pra logística do clube, porque quando você tem uma coisa programada a longo prazo, acaba ajudando muito.” Quanto ao preparador que foi trabalhar com Diego, Maurício de Sousa já chegou a trabalhar com Phillippe Coutinho no Vasco. Pro técnico, isso acaba ajudando muito.


Agora, a parte mais delicada: o calendário. Diego fala que no ano passado, o calendário prejudicou o São Cristóvão, uma vez que a competição foi adiada duas vezes, porque os clubes não correspondiam as datas previstas. E segundo ele, “isso acaba gerando um efeito dominó, prejudicando outro clube que fazia o planejamento no tempo correto e isso não pode acontecer. O adiamento, somado ao problema financeiro do São Cristóvão acabou prejudicando o trabalho por causa da incerteza. Com essa incerteza, os atletas começaram a sair e neste período, nove atletas saíram. E para o clube, repor os atletas que saíram com jogadores do mesmo nível é muito difícil, com todas as dificuldades financeiras que o clube passa.”


Já o planejamento da Série B1 deste ano foi atrapalhado pela pandemia (a segunda divisão começaria em maio, porém, foi adiada duas vezes: primeiro para agosto e depois pro começo de setembro). O futebol como um todo foi atrapalhado pela Covid - 19 e para Brandão, não é possível avaliar se isso foi bom ou não, justamente por causa da pandemia. Para ele, a programação inicial da B1, começando em maio, era excelente.


Sobre o fato de ter um time descansando por rodada nas competições (coisa que está acontecendo na B1 já há alguns anos), Diego diz que isso é excelente: “um treinador que tem uma semana de descanso consegue preparar melhor o seu time.”




Diego ainda comenta sobre o período no exterior: “Foi um aprendizado muito grande. Quando saí do Brasil em 2011, eu tinha 25 anos. Então, foram seis anos de aprendizado muito grande (Diego treinou o Al Sharjah em duas oportunidades). Lá, pude ver de perto outras escolas: a portuguesa, a alemã, a espanhola, a italiana, tudo no mesmo país. (inclusive, Diego tem dois diplomas do Conselho de Esportes de Dubai: Métodos de Treinamento da Academia Espanhola e Estilo de Defesa Italiana). No Sharjah, onde trabalhei, a gente tem a escola brasileira. No Ahli (Shabab Al Ahli), temos a escola inglesa. No Al Wasl, a escola espanhola. No Al Wahda, a italiana e por aí vai. E no dia a dia, nós víamos as outras escolas, aprendíamos outras coisas. E se você tiver mente aberta e captar as informações que você vai recebendo e vendo essas escolas pondo suas táticas em prática, você tem uma coisa muito gratificante. O importante é respeitar as outras escolas. Evoluí muito nos seis anos lá nos Emirados, uma evolução muito grande. Tirei as licenças (Diego tem duas: Técnico C pela Associação de Futebol dos Emirados, chancelada pela AFC – confederação asiática e Técnico B pela CBF). De 2011 até agora, tive uma evolução muito grande no futebol, absorvi muita coisa. Ir pra fora e ter a oportunidade de aprender com as outras escolas é muito bom. O brasileiro sabe muito de futebol, o Brasil é o país do futebol, mas temos que aprender muito com outras metodologias. Tanto que os três primeiros colocados do Brasileirão são comandados por técnicos estrangeiros (Eduardo Coudet, Domènec Torrent e Jorge Sampaoli, por Inter, Flamengo e Atlético – MG, respectivamente), que representam três escolas diferentes. Duas da Argentina e uma da Espanha. Com isso, você tem que abrir os olhos e buscar informações em outras metodologias, nas outras escolas.”

Entrevista: Daniel Tenório

Texto: Luiz Nascimento.

Matéria publicada em 06 de Novembro de 2020, 

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